as mil e duas noites

Desespero

Em Futurista, Trevas, novembro 3, 2011 às 3:10 pm

Uma forte luz foi acessa diretamente nos meus olhos me despertando. Mãos ao rosto, para bloquear a luz! O quê? É impossível fazer isso. O espaço é ridiculamente pequeno.

Essa merda é tão estreita que a movimentação de qualquer parte do meu corpo fica inviabilizada. O ar estagnado cheira a mofo e a luz é tão forte que de pálpebras fechadas a vermelhidão toma conta. Mas tem mais uma coisa me incomodando, minha cabeça está a ponto de explodir.

                -Ah!

Uma goteira de água congelante, bem no topo de minha cabeça, isso me faz tremer por inteiro, na medida do possível, já que me mover é impossível. A luz forte, o cheiro de mofo, a água congelante e a dor lancinante não me dão trégua há segundos, minutos ou há horas a fio, não sei ao certo. Estou recuperando minha memória.

O fim dos tempos. Até hoje não sei o que deu inicio, mas ele aconteceu. Fogo, seca, fome e frio. As árvores caiam, uma a uma, nas cinzas do que já fora grama. E por anos vaguei, andando pelas terras do que fora o estado mais rico do Brasil, a procura de água potável, comida e sol. Água e comida eram quase impossíveis de se encontrar, mas o sol não, esse nunca mais foi visto. A Terra congelava, e ardia ao mesmo tempo.

Muitos não viam outra solução a não ser aquilo. Não havia mais comida, os animais a muito deixaram de existir. O ecossistema estava destruído, somente o homem caminhava pela Terra, e dele alguns começaram a se alimentar. Será esse meu fim?

- Socorro!

Minha resposta vem rapidamente. Outra gota, mais gelada do que as outras, caiu em minha testa, está escorrendo pela minha face e descendo pelo meu corpo, resfriando-o mais um pouco. Tenho que me mover, mas todas as tentativas são em vão. Minhas mãos estão soltas, mas presas ao mesmo tempo.

O calor da cápsula só não é mais terrível graças às horríveis gotas gélidas que caiem sobre meu corpo. A forte luz só consegue piorar a já inacreditável dor de cabeça, e o cheiro de mofo seca ainda mais meu nariz, fazendo-o coçar.

Encontrei um abrigo seguro para a maldita chuva que molhava a terra infértil após anos de queimada. Depois de algumas horas de sono mal dormido, resolvi vasculhar a área ao redor, movido pelo ronco de meu estomago, de dias sem comida.

Segui pela mata até que encontrei um estranho rastro, vinha da rodovia e cortava meu caminho. Maldita hora em que não dei meia volta. Nesse instante o cheiro de carne assada praticamente tirou meus pés do chão e me fez flutuar em sua direção. Segui rapidamente pela mata até chegar ao seu fim, era o fundo de uma grande propriedade.

Quatro pessoas assavam algo em uma grande churrasqueira. Corri sem pudor algum em direção ao fogo quente, eles teriam de me dar um pedaço, aquela carne cheirava tão bem. Mas quando me aproximei, finalmente puder ver o que era.

- Alguém me tire daqui!

Maldita perna assada! Maldito cheiro de perna assada! Por que você se parece tanto com cheiro de carne de boi? Maldito holofote! Maldita água gelada! Maldita imobilidade! Esses desgraçados querem me comer! Vivo!

- Socorro!

Não consigo mexer minhas mãos. Não da nem pra limpar meus olhos, nem para molhar meu nariz. Maldita luz! Aquele bastardo me acertou bem na nuca quando tentei voltar para o mato, não tive nem tempo para me virar, ele já estava atrás de mim.

- Alguém apague essa luz! Pelo amor de Deus!

Deus?! Esse é outro… abandonou a Terra, e nos deixou aqui. Não sei por que ainda uso essa expressão. Puta merda! O quê vai me vencer primeiro? A água? A luz? A fome? A imobilidade? A ira? Ou será que meu nariz vai cair antes disso tudo!

- Não consigo me mexer… estou cansado. Não tenho espaço nem para dobrar os joelhos. Meus pés estão me matando.

Minha cabeça está me matando. Esse silêncio está me matando. Esse ar está me matando. Essa ansiedade está me matando. Será que vão me matar antes de dar a primeira mordida? Não sei o quê fazer!

- Me matem, seus bastardos!

Nesse momento a luz da cápsula se apagou.

- Graças a Deus!

A parte da frente da cápsula se abriu, mas ele não podia enxergar nada, a forte luz havia lhe queimado a visão. Quatro homens o retiraram da cápsula, ele se debatia, se contorcia, mas não havia escapatória. Eles o amarraram em uma mesa.

- O quê vão fazer? Hein? O quê vão fazer?!

Um dos quatro homens pegou um machado e cortou-lhe uma das pernas. Ele gritou, gritou até não ter mais voz, mas de nada adiantou, não havia ninguém ali, pelo menos ninguém com condições de ajudar.

Enrolaram trapos sujos na extremidade do que restara da perna esquerda do homem e o desamarraram. Enquanto o carrasco guardava o machado, outro levava a perna para fora da casa, e os outros dois carregavam o homem pela casa, pingando sangue.

- Malditos! Bastardos! Canibais dos infernos! Minha perna!

O homem gritava sem parar, xingava e se debatia, mas era tudo em vão. Os dois o levaram até uma porta, abriram-na e o atiraram escada abaixo. Ele caiu ainda consciente, sua visão já retornava, mas ainda estava terrivelmente afetada pela luz do holofote. Infelizmente ele pode ver a luz do porão se acender e a porta fechar.

Dos cantos ainda escuros do porão, olhos famintos o encaravam. Eram mais três, mas esses não tinham machado nas mãos, nem usavam roupas que os protegessem do frio. Eram não mais que crianças nuas com as mãos e bocas manchadas de tinta vermelha, e com apetites vorazes.

Avançaram.

FIM.

Bruno “Hanzo” Vieira

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