Escuridão. Vasta, infinita, seus tentáculos negros seguiam se espalhando por todo canto, roubando qualquer fonte de luz. No entanto, ela não podia conter aquele som, continuo e irritante. Qualquer um que ali estivesse poderia ouvir a gota de água se desprendendo do teto, o qual havia penetrado após anos de tentativas sem sucesso. Qualquer um que ali estivesse poderia ouvir o som que essa gota fazia ao cortar o ar em sua descida fatídica ao solo, e seu estrondoso ruído ao se juntar em uma pequena poça sobre o infinito negro.
A escuridão era seca e quente, não havia vento e o ar estava estagnado ali, a única fonte de umidade vinha daquela goteira. Mas, de repente, outro som se juntou ao da água, esse era continuou também, mas seu eco estremecia as paredes do infinito, quase que entravam em ressonância com ele. A escuridão, então, foi quebrada por uma luz avermelhada, afugentando aranhas e ratos que a muito não viam a luz. Uma tocha, e junto dela vinha um homem. Em seu braço esquerdo, um escudo arredondado acompanhava a providencial iluminação, na outra mão, uma espada refletia a tonalidade avermelhada da chama que abria um buraco no infinito. As paredes de pedra acinzentada pareciam agradecer ao jovem por sua passagem naquele estreito corredor. O caminhar decidido do rapaz se extinguiu assim que uma gota de água parou em suas costas.
O jovem levantou a tocha, fazendo com que sua luz fosse em direção ao céu, e logo encontrou a rachadura no teto de pedra, pela qual a água vinha chegando ao solo. Abriu a boca. Uma lamina de gelo cruzou sua garganta, e ele agradeceu por isso. Há tempos ele não bebia nada naquela temperatura, apenas água quase em temperatura de ebulição era o que ele havia conseguido nos últimos tempos, mas aquela não, aquela estava fria, fria como as terras do norte, que há muito deixará para traz. Uma saudade das terras além das montanhas acometeu-o naquele momento, e a floresta, sua terra natal, lhe veio à mente, as caçadas com seu pai, e as músicas características de seu povo milenar fizeram suas orelhas pontudas se ouriçarem. E enquanto o elfo olhava para cima, um som gutural fez se ouvir por todo o corredor, junto com ele uma corrente de ar quente balançou ameaçadoramente a chama da tocha, diminuindo-a até quase extingui-la.
O elfo abaixou-a e, ficando em posição de combate, protegeu sua fonte de luz com o escudo, até que a corrente de ar cessou. Ele, então, pode olhar em direção a escuridão, e como mágica seus olhos enxergaram muito além do que os de qualquer humano, vencendo o breu total, e se chocaram com o rastro de algo que desaparecera ao perceber quem vinha ao seu encalço. Correu em direção ao fim do corredor, deixando a cautela de lado, espada em punho, e enquanto corria a escuridão ia se desfazendo. Dobrou a esquina no fim do corredor, bem a tempo de ver a criatura atravessar um grande portal e sumir na escuridão. Adentrou o salão, e ali percebeu que os tentáculos da escuridão avançavam até mesmo contra o fogo.
Aproximou a tocha se sua face e murmurou algumas palavras, e o efeito foi imediato. O fogo manteve-se do mesmo tamanho, no entanto, em um raio de seis metros a sala ganhava uma claridade igual a do sol de meio-dia, porém, ao chegar à borda, a escuridão se mantinha implacável. E uma risada deu fim ao silêncio.
- O que faz aqui, elfo?
- Onde está o ônix? Criatura dos infernos!
- Para que? Você logo irá se juntar a ela. Agora já é tarde, Hanzo, sua amiguinha já virou comida no outro mundo, você não precisa mais do ônix.
- Você sabe que não tem saída, seu lixo ambulante, apareça, pois irei vingá-la e recuperarei o ônix, farei como o velho Bill me disse.
- E você acha que ele irá lhe enviar para o outro mundo e lhe dará a passagem de volta? Ele o quer do outro lado muito mais do que eu!
O elfo deixou a tocha cair no chão e ficou em posição de combate. Seus olhos brilharam e ele forçou sua vista em direção a escuridão mágica que o cercava. Quatro pilares sustentavam o teto alto do salão. Em um dos cantos muitas peças de ouro estavam empilhadas. No outro, esqueletos estavam jogados. Ele então olhou para o portal por onde havia entrado e uma parede de pedra subiu, fechando-a. Nesse momento um vulto saiu de trás de uma das pilastras, avançando em um bote letal contra o elfo, que para espanto da criatura, desapareceu de sua frente. A cabeça da criatura rolou pelo salão, o elfo havia surgido novamente, decapitando a criatura dragonesca com um único golpe. A sala se iluminou por completo e o elfo pode então encontrar a pedra que havia ido buscar.
- Apareça velho maldito, estou aqui com o ônix que me pediu.
E de um dos cantos surgiu um senhor, roupa preta, pele enrugada e cartola igualmente negra. Ele caminhou até o local onde o elfo se encontrava, pegou o ônix do chão, e olhou em seu interior, e lá dentro ele viu o elfo, lutando contra as sombras para salvar seu grande amor. E então o velho sorriu. Hanzo estava finalmente onde ele queria.
FIM
Bruno “Hanzo” Vieira